Volta e meia ele me questiona: “por que você me odeia tanto?” Sempre respondo, que tirando a implicância natural do cotidiano, eu tenho motivos específicos que me fazem não gostar. Talvez um dia eu conte, depois de uma garrafa de vinho. Bebida é sempre o ponto de partida para qualquer conversa desconfortável na vida.
— Eu vou te contar, mas promete que não vai surtar? Eu gosto de você, bem mais do que você pode imaginar. Se eu tivesse opção, juro não gostaria. Sempre falei em quanto te odeio, porque a única escolha que pude fazer, eu fiz, preferi fingir que nada existia. Não queria estragar a rotina, afinal, é você quem acaba alegrando meu dia. Não me interesso por ninguém, mas aí está você, não pense que fiquei feliz quando finalmente entendi meus sentimentos. Você realmente me tira do sério em alguns momentos, mas deixa eu te dizer: eu não odeio você, eu odeio o que sinto quando estou você.
E no meio do meu diálogo interno ele quis saber, se um dos motivos do meu ódio, era pelo fato dele ter namorada. Nem sei se ele entenderia, mas não tenho ódio do que não posso controlar, tenho ódio do que eu sei que posso controlar, mas não consigo. Ser amiga dele sempre foi o mais importante, entretanto, quando a gente não consegue viver aquilo que quer, sempre vai existir a sensação de que algo está faltando.
— Mas vem cá, só preciso que você entenda. Eu não odeio você, eu odeio o que sinto quando estou você.
Odeio quando não quero gostar e ainda sim gosto. Odeio como ele me desestabiliza, me distrai e me deixa nervosa. Não entendo por que ele ocupa meus pensamentos durante o dia. Acho desnecessário o frio na barriga, e a sensação de ter o coração saindo pela boca durante nossas conversas. Odeio quando ele me faz rir até doer a barriga. Fico aborrecida quando ele não me entende, não me leva a sério, e não responde o que eu pergunto. Odeio não consigo ignorar.
Não suporto, o tom calmo na voz, que ele sempre faz, quando precisa que eu preste atenção nele. Não gosto quando ele desperta sentimentos que eu tinha esquecido que existiam. Não suporto também, quando ele me faz baixar a guarda, depois revida, me fala que prefere não conversar. Não entendo, essa vontade de abraça-lo em momentos aleatórios do dia. Odeio quando a gente desvia o olhar, odeio quando ele é amável, e que o sorriso mais espontâneo dele, é também o mais bonito.
Odeio quando ele manda mensagem, sempre que ele manda eu penso que ele deveria estar falando com a namorada e não comigo. Hoje ele não mandou mensagem, deve estar falar com ela… é talvez no fundo eu odeie isso também.




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